Um dos assuntos mais recorrentes no consultório é a história de não querer “remédio”e preferir um “tratamento natural”.
Creio que desde que o mundo é mundo, estamos sempre buscando a cura para cada adversidade que a natureza nos impõe, e desde então, buscamos nela mesma a solução. E por vezes isso se mostra efetivo. Quando a malária devastava civilizações, a solução mais efetiva foi a utilização da casca de uma árvore encontrada apenas nas Américas. Quando a dor limitava, diversas foram as ervas lançadas, assim como para cada sintomas que as doenças nos infligiam. Sem contar a revolução antibiótica.
As plantas fazem parte da nossa vida, do nosso tratamento, da nossa medicina, desde sempre.
O que me incomoda não é a sua utilização, muito pelo contrário, algumas delas até fazem parte do meu dia dia e também do meu receituário. O que me incomoda é a vulgarização de sua utilidade, a religiosidade com relação aos seus supostos milagres e a inocência com seus efeitos adversos.
Me lembro de um caso na época da residência onde uma jovem paciente havia sido internada por hepatite aguda, em um estado já avançado e bem grave. Me lembro de todos estarmos buscando desesperadamente uma causa (e com isso uma solução) para o problema, até que se descobriu que a paciente usava doses altas e constantes de um chá laxativo (o sene herbarium). Desde então venho encarando as plantas com muito mais respeito (e mais receio).
Não podemos confundir o natural com o imaculado.
As substâncias hoje utilizadas pelos pacientes que atendo, com promessas de componentes anti-inflamatórios, regulação imunológica, prevenção ao câncer, tratamento de anemia e da fadiga, não são excluídas do mundo científico como possíveis tratamentos futuros, mas não o são no presente.
São componentes que necessitam de solo específico, de extração complexa, de doses ainda incertas, com rápido metabolismo e baixa absorção na sua grande maioria. Embora se tenha evidências de efetividade em certas moléstias, a maioria dos estudos são in vitro, em animais e, mesmo que em humanos, em números de pacientes muito baixos, deixando mais dúvidas do que certezas.
As pessoas costumam acusar médicos que não a utilizam como céticos. Minha resposta costuma ser “e por que você não é?”. Já imaginou um engenheiro falar que vai usar um “cimento” que veio da Malásia e que parece ser muito bom, com promessas a serem estudadas, para construir a sua casa?
E se fosse apenas utilizar-se das folhas e o in natura das plantas em questões, ainda seria tolerável, mas as pessoas pagam caro em cápsulas de empresas duvidosas, sem regulação, com doses e substâncias mais duvidosas ainda.
No fim, o que era pra ser um tratamento natural, virou um outro remédio, mas esse com o aval da vizinha e da moça que vende iogurte.
Por ver muitos pacientes pararem o tratamento que temos evidências mais robustas e vê-los gastando grande parte de sua aposentadoria em comprimidos religiosos, achei que seria uma boa tentativa esmiuçar essas plantinhas da moda, para vermos juntos, se vale a pena mesmo o consumo do cogumelo solar e seus companheiros.
Nos próximos posts, vou tentar botar um pouquinho do que ando lendo sobre cada um deles. 😉






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