O Saara em mim.

O Saara em mim.

‘Em tempos de seca, qualquer pingo d’água é oceano’, como diria uma frase solta que li em algum lugar da internet.
Uma das queixas mais comuns que atendo no consultório se relacionam aos sintomas glandulares produzidos pela Síndrome de Sjögren (diz-se “Jô-grein”), uma doença inflamatória de origem autoimune, que tem como principal marca a síndrome seca.

Apesar de soar raro, acomete em média apenas 0,17% da população de nosso país, em números precisos, equivale a mais de 350.000 brasileiros que sofrem com ardor, coceira na pele, feridas constantes, falta de lubrificação em órgãos genitais, com dor/desconforto nas relações íntimas, além de aumento de lesões e infecções orais, cáries repetitivas, perda de dentição, inflamações oculares de repetição, embaçamento visual e outras centenas de sensações desagradáveis que só quem vive sabe o que significa.

Uma das coisas mais frustrantes no tratamento dessa doença é ainda não existir uma medicação que consiga curar ou ao menos aliviar/reduzir esses sintomas. Todas as armas que temos contra eles, resumem-se à tratamentos tópicos, com cremes, pomadas, colirios, loções e afins. O que não é de todo ruim, você poderia estar indagando, porém, além de necessitar de uma disciplina religiosa (que nos dias atuais é cada vez mais complicado) e necessitar interromper as atividades, por vezes a cada 2 horas, para aplica-los, os tratamentos são muito dispendiosos, restringindo-se apenas à população mais abastada.

Visando divulgar maiores informações sobre as descobertas e recomendações mais recentes sobre o assunto, resolvi tentar reunir em 5 tópicos algumas maneiras de tentar contornar a secura e ‘molhar o Sjögren’.:


1) Hidrate-se! Não tem como fugir do básico! A água é sua melhor amiga nesse momento e deve estar presente sempre, em qualquer lugar que você vá! O segredo: pequenas quantidades, mas várias vezes ao dia, mais que isso, várias vezes na hora.
2) Umidade. Segundo alguns estudos, o ambiente de trabalho deve ter uma umidade média de 40 – 70%. Para se ter uma ideia, mesmo um paciente sem doença não toleraria um ambiente < 20%. Em casa, o segredo pode estar no uso de umidificadores, principalmente no quarto, ao deitar, e maior número de plantas no ambiente.
3) Boca. Uma possibilidade é o estímulo salivar com balas/gomas de mascar SEM AÇÚCAR – componente danoso para esses pacientes – e enriquecidos com xilitol. Evitar uso de tabaco, álcool e café. Existem ainda as salivas artificiais, em forma spray ou em gel. Uma outra dica é o uso de gel ou enxaguante bucal com fluoreto de sódio com pH neutro. O aumento na ingesta de alimentos ricos em ômega 3 também parece exercer um papel interessante À esses pacientes. Na parte dos lábios, os produtos a base de vitamina A e D, petrolato e lanolina são indicados
4) Olho. Sair com óculos de sol no dia dia é uma boa dica, assim como aplicação de compressa de água morna local 10 min ao dia. Evitar o uso contínuo de telas, como celular, TV e computadores. O uso de colírios lubrificante SEM CONSERVANTES, principalmente os que maior concentração em lipossomas e ácido hialurônico, são encorajados a serem usados no mínimo 4x/dia, devendo chegar a 2/2 horas, conforme demanda. Alguns estudos sugerem que os que contem polietilenoglicol seriam mais efetivos que os com carmelose ou carboximetilcelulose, mas ainda necessitam maiores confirmações em novos estudos. E não podemos esquecer dos colírios e pomadas oftalmológicas que têm a vitamina A como princípio ativo.
5) Pele. Por último, a hidratação do maior órgão do corpo. Do básico, não se deve tomar banho quente, e sim morno, curto. Cuidado ao secar o corpo, deixando ainda úmido para passar o hidratante (preferir com vaselina, ác. lático, ureia, ceramidas ou combinação, como o CeraVe e Cetaphil). Ao lavar louças ou lidar com produtos limpeza, sempre utilizar luvas. Abusar do uso de protetor solar. Para mulheres, o uso de lubrificantes a base d’água em momentos íntimos faz-se importante, além do uso de hidratantes vaginais não-hormonais, como os com ácido hialurônico. Para mulheres na menopausa, o uso de creme vaginal com estrogênio pode ser uma opção.


Espero que com as dicas acima fique menos complicado viver com o Sjögren e que oceanos fluam de pequenas gotas em tempos de seca.

Fontes:
Price EJ, Benjamin S et al. British Society for Rheumatology guideline on management of adult and juvenile onset Sjögren disease. Rheumatology (Oxford). 2025 Feb 1;64(2):409-439 doi: 10.1093/rheumatology/keae152. PMID: 38621708.
Ramos-Casals M et al. EULAR-Sjögren Syndrome Task Force Group. EULAR recommendations for the management of Sjögren’s syndrome with topical and systemic therapies. Ann Rheum Dis. 2020 Jan;79(1):3-18. doi: 10.1136/annrheumdis-2019-216114. Epub 2019 Oct 31. PMID: 31672775.
https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/4929-sjogrens-syndrome
https://www.hopkinssjogrens.org/disease-information/treatment/
https://sjogrens.org/sites/default/files/inline-files/Dry%20Skin%20Patient%20Education%20Sheet_0.pdf

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