Quando o engano encontra a oportunidade.

Como diz o ditado, na medicina tudo vem em par.

Ontem mesmo atendi em seguida duas pacientes acima dos 60 anos, lúcidas e ativas, que na consulta anterior tínhamos combinado de trocar/adicionar as medicações. As duas voltaram com piora dos sintomas e as duas não haviam realizado o tratamento.

Por muito tempo eu ficava chateado com essa notícia, pois achava que a paciente estava sendo relapsa, desatenta ou até que não levava fé ao tratamento proposto.

Hoje percebo que essa é uma parte da consulta onde há muitos erros, de ambos os lados, tanto do médico quanto do paciente.

Fazendo algumas entrevistas e me botando no lugar do paciente, observo que já antes de entrar no consultório, o paciente encontra-se em estado de nervosismo/ansiedade/inquietação. Confesso que, do meu lado de entrevistador, nunca parei para pensar que isso ocorria e o quanto isso pode ser danoso para toda a consulta, já que desnorteia o paciente, que fica com menor concentração e acaba não compreendendo o que foi proposto na conduta médica.

Atualmente tento tranquilizá-lo, dar tempo de se acomodar no local, ambientar-se, falar sobre o flamengo ou como tem chovido, antes de ir direto ao assunto. Tento repetir e ler juntos o que foi escrito no receitário e até peço para que eles falem em voz alta depois, com suas próprias palavras. Maa ainda sim, vez ou outra escuto que esqueceram como fazia, como tomava, que não sabiam que era só uma vez por semana e tomaram todo dia, que perderam a receita, foram assaltadas com a bolsa que tinha os papéis …

Com isso, mesmo aplicando as mudanças no consultório, percebi que ainda permaneciam dificuldades no pós-consulta, na organização das medicações em seu próprio domicílio. O que, mais uma vez, é muito compreensível, já que estamos tratando de pacientes que usam uma média de 5-12 medicações diárias. 

Estima-se que 1 a cada 4 adultos acima dos 60 anos use 10 ou mais medicações. Na Austrália um estudo mostrou que 94% dos pacientes acima dos 65 anos usam 5 ou mais. Na Espanha outro estudo evidenciou que quase 30% dos pacientes sairam da consulta sem tirar dúvidas sobre a prescrição e que 20% deixaram a sala sem entender nada do que havia sido discutido.

Segundo a OMS, 1% de todo gasto global em saúde (U$ 42 bilhões por ano) é atribuído a erros na medicação, na sua maioria por confusões na auto-aplicação. O erro mais comum observado nos estudos foi relacionado à dosagem incorreta, seguido por esquecimento do horário e troca da substância.

Para mudar esse paradigma, e para reduzir ainda mais as chances de enganos e esquecimentos, fui buscar algumas dicas e utensílios que pudessem nos ajudar nessa tarefa. Resumo abaixo os tópicos que achei mais interessante e disponibilizo no fim documentos em pdf e links para aplicativos dos exemplos aqui citados:

1) Onde guardar: É importante deixar TODOS os medicamentos em uma mesmo lugar. Evite banheiros e locais úmidos. Separe uma gaveta, armário ou prateleira só para isso, de preferência num local de fácil acesso e próximo dos ambientes da sua rotina do dia dia.

2) Listas: Faça uma lista com todas as medicações em uso, com seus nomes, dosagens, data de início e término (se for o caso), horário de tomada e, de preferência, com um espaço para poder dar check no dia em que foi feito, para não se confundir e cole na geladeira. (Logo abaixo disponibilizo um pdf com exemplo de tabela que poder ser apicada)

3) Sistema de cores: um truque legal é colar um adesivo colorido, ou fazer uma desenho com canetinhas coloridas na caixa da medicação com uma legenda fácil de lembrar sobre o horário da tomada. Por exemplo: amarelo (toma de manhã), vermelho (tomar no almoço), verde (tomar a tarde) e azul (tomar a noite).

4) Aplicativos: os dispositivos eletrônicos podem ser de grande ajuda. O que não falta hoje são aplicativos que despertam na hora da mediação, produzem sua lista portátil, apresentam o nome e o desenho da caixa par facilitar a vida. Abaixo descrevi alguns que experimentei e achei de grande valia.

5) Organizador de comprimidos: atualmente existerem várias opções para compras onlineou mesmo nas grandes farmácias desses dispositivos. Na sua maioria são de plástico, separados por dias da semana e períodos do dia (manha, tarde e noite). É uma ótima opção, mas exige reposições semanais e compromisso. 

6) Tire um tempo só para isso: Evite fazer reposições de última hora! Se comprometa a tirar um dia do mês ou da semana para revisar seu estoque, datas de validade, listas e organizadores de pílulas.

7) Peça ajuda! Todos nós temos uma vida muito atribulada e isso faz com que nossa memória seja sobrecarregada e falhe em muitos momentos. Isso vai aumentado com a idade e não é vergonha nenhuma pedir para os amigos e familiares auxiliarem nessa tarefa! Quanto mais gente puder ajudar, menor a chance de errar!

Importante lembrar que não existe melhor maneira ou uma única maneira para se organizar. Cada paciente demanda uma abordagem diferente e apenas tentando saberemos qual é a melhor pra você. O que não podemos é dar chance para o engano nos encontrar.

Fontes:

Fatma Aldila, Ramesh L. Walpola, Research in Social and Administrative Pharmacy,

https://doi.org/10.1016/j.sapharm.2021.03.008

Carli Lorenzini, G. Managing Multiple Medications and Their Packaging for Older People in Home Care Nursing: An Interview Study. Healthcare 2021, 9, 1265.

https://doi.org/10.3390/healthcare9101265

Pérez-Jover V et al. Inappropriate Use of Medication by Elderly, Polymedicated, or Multipathological Patients with Chronic Diseases. Int J Environ Res Public Health. 2018 Feb 10;15(2):310. doi: 10.3390/ijerph15020310.

https://medlineplus.gov/ency/patientinstructions/000600.htm

LINKS PARA OS APLICATIVOS:

https://apps.apple.com/br/app/mytherapy-medication-reminder/id662170995?l=en-GB

https://apps.apple.com/br/app/medisafe-pill-reminder/id573916946?l=en-GB

https://apps.apple.com/br/app/aqui-tem-remedio/id1065835148?l=en-GB

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