Não tem como dizer que você nunca sofreu com câimbras não é mesmo?
E você nāo está sozinho nessa. Mais de 50% da populaçāo dos EUA acima de 50 anos também já sofreu ou sofre com a condição, com 40% reportando 3 ou mais episódios em uma semana. Em grávidas não é diferente, 40% delas relatam câimbras durante a gestação.
A palavra veio ao português do arcaico cambra, através do francês crampe, que por sua vez, surgiu do alemão kramp, significando gancho ou grampo.
A câimbra pode ser definida como uma súbita e desconfortável contração muscular espontânea, com maior acometimento noturno, durando segundos a minutos, mais comumente em membros inferiores, como a panturrilha, com alteração muscular visível e palpável, com possíveis dores residuais que podem permanecer por semanas.
Sua causa é muito discutida, debatida, teorizada e à cada artigo novo, uma nova provável certeza se é descrita. Mas o mais aceito atualmente é que a fadiga muscular seria a causa primária, talvez pelo acúmulo de ácido lático, e que o neurônio motor responde com hiperatividade e descarga involuntária de alta frequência.
Sabe-se que tudo se inicia do disparo espontâneo das células do corno anterior adjacente à medula, seguido de contração das unidades motoras +- 300 vezes/segundo.
Outra hipótese é sobre nossos hábitos modernos, mais estáticos, que levariam ao encurtamento muscular e do tendão. O que também acontece durante a noite, quando o pé está passivamente na posição de flexão plantar e as fibras do músculo da panturrilha estão maximamente reduzidos, inibindo o estímulo nervoso e gerando a câimbra.
Além disso, sabemos que com a idade há perda do neurônio motor, o que é mais intenso nos membros inferiores, o que também poderia contribuir para o surgimento dos sintomas.
Além da causa idiopática, diversas condições podem se manifestar com esse sintoma, destacando-se a atividades físicas mais intensas, desidratação, gestação, tratamento com hemodiálise, quimioterapias e radioterapias, artrose, insuficiência venosa, cirrose, estenose lombar, diabetes, hipotireoidismo, Parkinson, AVC e uso de certas medicações.
Dentre os remédios mais associados podemos citar: nifedipina, diuréticos, estatinas, salbutamol, ciclosporina, lítio, fibratos, teriparatida, naproxeno, raloxifeno e a pregabalina.
Por ser um sintoma comum e na sua maioria de causa benigna, as câimbras devem ser investigadas com mais cuidado quando contínuas, progressivas, limitantes, com períodos também diurnos, associação com outros sintomas, como dormências, contrações involuntárias, redução da força e do movimento.
Um bom exame físico médico e uma boa coleta da história do paciente já costuma ser o suficiente para o rastreio inicial, mas também podem se fazer necessários exames laboratoriais, com dosagem de eletrólitos, função renal, hepática e até a solicitação de um exame mais específico, como a eletroneuromiografia.
Com relação ao tratamento, nenhuma medicação mostrou-se 100 % segura ou eficaz. O melhor remédio continua sendo o alongamento, realização de atividade física leve-moderada, massagem local, fisioterapia, manter-se hidratado e, em alguns casos, algumas medicações podem ser recomendadas, como a gabapentina, complexo B, carisoprodol, mas sempre prescritas por um profissional da área.
Com relação ao magnésio, os estudos não mostraram eficácia/benefício em seu uso, a não ser em gestantes.
Em suma, trata-se de uma condição majotariamente benigna, mais comum em períodos noturnos, em mulheres e pacientes acima dos 60 anos. Apesar da causa desconhecida, sabemos que pode ser reduzida com mudanças de hábitos diários, principalmente com alongamento. Quando persistentes, deve-se revaliar as medicações de uso contínuo e a avaliação médica faz-se necessária.
Portanto, não deixe que a câimbra te enrole.
FONTES:
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