Ozempic, Wegovy e Mounjaro: o que essas medicações têm a ver com doenças reumáticas?

Nos últimos anos, medicações como semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) saíram da endocrinologia e farmácias e chegaram às conversas do dia a dia. Conhecidas principalmente pelo efeito no emagrecimento, essas medicações estão chamando a atenção da reumatologia por um motivo que vai muito além da balança: elas parecem combater a inflamação de dentro para fora — e isso interessa muito a quem vive com artrite, lúpus, artrite psoriásica e outras doenças reumáticas.

A ciência ainda está construindo esse caminho, mas o que já se sabe é suficiente para valer uma conversa séria.

O que são os agonistas de GLP-1?

GLP-1 é uma sigla para um hormônio natural produzido pelo intestino chamado peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1. Ele é liberado depois que você come e tem várias funções: estimula a produção de insulina, reduz o apetite, retarda o esvaziamento do estômago e regula o açúcar no sangue.

Os medicamentos agonistas de GLP-1 — como a semaglutida e a liraglutida — imitam e potencializam a ação desse hormônio. A tirzepatida vai além: ela age em dois receptores ao mesmo tempo (GLP-1 e GIP), o que explica seus resultados ainda mais expressivos em termos de perda de peso e controle metabólico.

O que a ciência descobriu nos últimos anos é que esses receptores de GLP-1 não existem apenas no intestino e no pâncreas — eles estão presentes em células do sistema imunológico, no cérebro, nas articulações e em tecidos inflamados. E quando ativados nessas regiões, eles parecem acalmar processos inflamatórios que estão no centro das doenças reumáticas.

Como essas medicações combatem a inflamação?

Esse é o ponto mais relevante — e mais novo — da pesquisa. Os mecanismos anti-inflamatórios dos agonistas de GLP-1 são múltiplos e atuam em diferentes níveis do organismo:

Bloqueio de vias inflamatórias centrais: essas medicações inibem o NF-κB e o NLRP3, dois dos principais “interruptores” da inflamação no corpo. Quando ativados de forma exagerada — como acontece nas doenças autoimunes — esses mecanismos geram uma cascata de inflamação que danifica articulações, ossos e órgãos. Os agonistas de GLP-1 ajudam a desligar esse processo.

Redução de citocinas inflamatórias: citocinas como TNF-α, IL-1β, IL-6, IL-8 e IL-17 são proteínas que promovem inflamação e estão elevadas em doenças como artrite reumatoide e lúpus. Estudos mostram que essas medicações reduzem a produção dessas substâncias enquanto aumentam a IL-10, que tem efeito anti-inflamatório.

Mudança no comportamento das células de defesa: os macrófagos são células do sistema imunológico que podem assumir um perfil inflamatório (M1) ou anti-inflamatório (M2). Em modelos de osteoartrite, a liraglutida deslocou essas células do perfil inflamatório para o protetor, reduzindo a destruição da cartilagem.

Proteção das articulações: em estudos com tecido sinovial — o revestimento interno das articulações — os agonistas de GLP-1 inibiram enzimas chamadas metaloproteinases, responsáveis pela degradação da cartilagem e do colágeno. Esse efeito sugere uma ação potencialmente modificadora da doença nas articulações.

Ação no cérebro: pesquisas recentes mostraram que receptores de GLP-1 no sistema nervoso central também participam do controle da inflamação periférica — ou seja, o cérebro usa esses receptores para “mandar recados” de acalmar a inflamação no resto do corpo. Esse é um mecanismo completamente independente da perda de peso.

Proteção mitocondrial e redução do estresse oxidativo: nas células do revestimento articular de pacientes com artrite reumatoide, os agonistas de GLP-1 melhoraram a função das mitocôndrias e reduziram o estresse oxidativo — dois processos que, quando desregulados, alimentam a inflamação crônica.

Em termos práticos, a tirzepatida reduziu a proteína C-reativa (um marcador de inflamação usado rotineiramente na reumatologia) em cerca de 33% e a interleucina-6 em 18% em comparação ao placebo. São números que qualquer reumatologista considera clinicamente relevantes.

O que já foi estudado em cada doença reumática?

Osteoartrite — a evidência mais sólida

O estudo mais importante até agora foi o STEP 9, publicado no New England Journal of Medicine em 2024. Nele, 407 pessoas com obesidade e osteoartrite moderada do joelho receberam semaglutida ou placebo por 68 semanas. O resultado foi expressivo: quem usou a medicação perdeu em média 13,7% do peso (contra 3,2% do placebo) e teve redução de 41,7 pontos na escala de dor WOMAC, comparado a 27,5 pontos no grupo controle. Houve também melhora significativa na função física e menor necessidade de analgésicos.

Além disso, dados do mundo real mostram que usuários de medicações anti-obesidade têm risco 27% menor de desenvolver osteoartrite — com a tirzepatida apresentando benefício ainda maior que a semaglutida. Estudos em laboratório revelam que essa proteção vai além do emagrecimento: os agonistas de GLP-1 reduzem diretamente a degradação da cartilagem e têm efeito analgésico local nas articulações.

Artrite reumatoide — promissor, mas ainda em construção

Na artrite reumatoide, os estudos ainda são majoritariamente experimentais ou observacionais. Em modelos animais de artrite, a liraglutida mostrou efeitos expressivos: reduziu a inflamação, diminuiu a destruição óssea e articular e normalizou processos celulares alterados pela doença. O resultado foi ainda melhor quando a liraglutida foi combinada com metotrexato — sugerindo um possível efeito sinérgico com o tratamento padrão.

Em pacientes humanos, um estudo retrospectivo mostrou que perda de peso de pelo menos 5% com essas medicações foi associada a melhora na atividade da doença e na qualidade de vida. Especialistas reconhecem o potencial, mas são cautelosos: ainda não há evidência suficiente para indicar essas medicações como tratamento específico para artrite reumatoide, e ensaios clínicos controlados estão em andamento.

Artrite psoriásica e psoríase — resultados encorajadores

Em pacientes com psoríase e obesidade, um ensaio clínico aberto mostrou que a semaglutida reduziu o PASI (índice de gravidade da psoríase) de uma mediana de 21 para 10 após apenas 12 semanas — uma melhora de mais de 50%. Outro estudo prospectivo com 43 pacientes mostrou redução de 48% no PASI ao longo de seis meses, com melhora também nos marcadores inflamatórios como IL-6 e proteína C-reativa.

Para a artrite psoriásica especificamente, os dados ainda são limitados, mas o benefício na psoríase cutânea — que frequentemente precede o comprometimento articular — abre perspectivas interessantes.

Lúpus eritematoso sistêmico — dados iniciais tranquilizadores

No lúpus, onde qualquer intervenção nova exige cautela redobrada, os dados disponíveis são pequenos mas positivos. Uma análise retrospectiva com 18 pacientes com LES em uso de agonistas de GLP-1 mostrou que não houve aumento nas crises da doença em relação ao esperado para a condição, e houve redução média de 13% no IMC em 6 a 10 meses de tratamento, embora o número pequeno de pacientes limite conclusões definitivas. Além disso, essas medicações demonstraram benefícios cardiovasculares e renais — dois sistemas frequentemente comprometidos no lúpus.

Essas medicações são seguras para quem tem doença reumática?

Essa é a pergunta mais importante — e a resposta é: de forma geral sim, mas com atenção a alguns pontos.

Um estudo canadense de grande porte com mais de 229 mil pacientes diabéticos comparou usuários de agonistas de GLP-1 com usuários de outras medicações para diabetes e não encontrou aumento no risco de desenvolver doenças reumáticas autoimunes. Outro dado relevante: entre pacientes que já tinham doenças inflamatórias imunomediadas, o uso de agonistas de GLP-1 foi associado a menor mortalidade geral e menos eventos cardiovasculares graves.

Existe, porém, uma controvérsia na literatura: um estudo com quase 290 mil pacientes encontrou associação entre o uso de GLP-1 e aumento discreto no risco de algumas condições autoimunes, incluindo artrite reumatoide, espondilite anquilosante e tireoidite autoimune. Esse sinal ainda está sendo investigado e não é consenso na comunidade científica — as diferenças de metodologia entre os estudos explicam parte dessa discrepância.

A conclusão atual dos especialistas é que o perfil de segurança parece favorável para quem já tem doença reumática estabelecida, mas o monitoramento cuidadoso é essencial, especialmente em quem ainda não tem diagnóstico mas tem fatores de risco para doenças autoimunes.

Contraindicações absolutas que se aplicam a todos:

  • Histórico pessoal/familiar de câncer de tireoide medular ou síndrome MEN 2
  • Gravidez e amamentação
  • Alergia conhecida ao medicamento

Situações que pedem atenção especial no paciente reumático:

  • Gastroparesia ou cirurgia gástrica prévia — comum em pacientes com esclerose sistêmica
  • Pancreatite prévia
  • Uso concomitante de anti-inflamatórios — risco aumentado de desidratação e lesão renal em caso de vômitos intensos
  • Retinopatia diabética proliferativa — especialmente com semaglutida

Efeitos colaterais mais comuns:  Os efeitos gastrointestinais — náusea, enjoo, diarreia e desconforto abdominal — são os mais frequentes, afetando entre 25% e 60% dos usuários. Na maioria dos casos são leves, transitórios e diminuem com o tempo. A introdução gradual da dose é a principal estratégia para minimizá-los. Cerca de 5% a 10% das pessoas interrompem o uso por causa desses sintomas.

E a interação com os remédios da reumatologia?

Até o momento, não foram descritas interações farmacológicas diretas entre os agonistas de GLP-1 e os imunossupressores usados em reumatologia — como metotrexato, biológicos e inibidores de JAK. Isso é uma boa notícia.

O ponto de atenção é que essas medicações retardam o esvaziamento do estômago, o que pode alterar a absorção de medicamentos orais. O metotrexato oral, por exemplo, pode teoricamente ter sua absorção afetada — embora a relevância clínica disso ainda não esteja bem estabelecida. Se você usa anticoncepcionais orais, a recomendação é usar método de barreira adicional nas primeiras semanas de uso e após cada aumento de dose.

O que isso significa para você, paciente?

Essas medicações não são, por enquanto, um tratamento específico para doenças reumáticas — e é importante deixar isso claro. Mas para pacientes reumáticos que também convivem com obesidade, diabetes tipo 2, síndrome metabólica ou risco cardiovascular elevado, elas podem oferecer um benefício que vai além do emagrecimento: redução da inflamação sistêmica, proteção cardiovascular e renal, e possivelmente melhora na atividade da própria doença reumática.

A ciência está avançando rapidamente nessa área. Vários ensaios clínicos estão em andamento para responder às perguntas que ainda existem — especialmente sobre o uso combinado com os tratamentos convencionais da reumatologia e sobre os efeitos a longo prazo em doenças autoimunes.

Se você tem uma doença reumática e está considerando ou já usa alguma dessas medicações, a conversa com o seu reumatologista é indispensável. A decisão precisa ser individualizada, considerar o perfil completo da sua doença e ser acompanhada de perto.

REFERÊNCIAS:

Post baseado em evidências científicas recentes, incluindo publicações do New England Journal of Medicine (2024), Nature Reviews Rheumatology (2025), Autoimmunity Reviews (2025), Annals of the Rheumatic Diseases (2025), Arthritis & Rheumatology (2026) e Journal of Clinical Investigation (2025).

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